{"id":35099,"date":"2022-12-29T09:30:29","date_gmt":"2022-12-29T06:30:29","guid":{"rendered":"https:\/\/demo5.teaser-cube.ru\/2022\/12\/29\/ptgeorge-miller-conhece-o-poder-de-uma-grande-historia\/"},"modified":"2022-12-29T09:30:29","modified_gmt":"2022-12-29T06:30:29","slug":"ptgeorge-miller-conhece-o-poder-de-uma-grande-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/movieworld.blog\/pt\/2022\/12\/29\/ptgeorge-miller-conhece-o-poder-de-uma-grande-historia\/","title":{"rendered":"George Miller conhece o poder de uma grande hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>George Miller nunca foi um dos que se dedicaram a um \u00fanico g\u00e9nero. Embora o realizador australiano tenha atingido pela primeira vez o seu tamanho como o escritor-director dos filmes bomb\u00e1sticos e sombrios Mad Max, ele \u00e9 tamb\u00e9m a mente por detr\u00e1s de ambos os filmes Babe, sobre um porquinho falante engra\u00e7ado com um cora\u00e7\u00e3o de ouro. Tamb\u00e9m criou a animada franquia Happy Feet, pela qual ganhou o seu \u00fanico pr\u00e9mio da Academia.\n<\/p>\n<p>Acima de tudo, Miller adora hist\u00f3rias - quer se trate de guerreiros de estrada cinzentos em busca de \u00e1gua ou de pinguins com disquetes que \"s\u00f3 t\u00eam de fazer boogie\". O seu \u00faltimo projecto, Three Thousand Years of Longing, \u00e9 em parte sobre esse amor. O filme segue uma narratologista solit\u00e1ria (Tilda Swinton) enquanto se aventura a uma confer\u00eancia de hist\u00f3rias na Turquia, trope\u00e7a numa garrafa num bazar, e acaba por libertar um djinn (Idris Elba) maior do que a vida no seu quarto de hotel. Os dois iniciam uma longa discuss\u00e3o sobre a hist\u00f3ria de s\u00e9culos do g\u00e9nio e as circunst\u00e2ncias que o deixaram preso na garrafa. H\u00e1 sequ\u00eancias de ac\u00e7\u00e3o e belas paisagens e personagens estranhas ao longo do caminho, mas no seu \u00e2mago, Tr\u00eas Mil Anos tem a ver com a alegria de criar e contar uma hist\u00f3ria, bem como com a forma como nos representamos perante os outros.\n<\/p>\n<p>Esta entrevista foi editada para maior clareza e dura\u00e7\u00e3o.\n<\/p>\n<p>George Miller: Bem, toda a minha vida, na verdade. As hist\u00f3rias ajudam a navegar na exist\u00eancia e a ter um pouco mais de empatia.\n<\/p>\n<p>O meu irm\u00e3o g\u00e9meo - n\u00e3o \u00e9ramos g\u00e9meos id\u00eanticos, mas pass\u00e1mos os primeiros 22 anos da nossa vida juntos, praticamente todos os dias. And\u00e1mos na mesma escola prim\u00e1ria, no mesmo internato, no mesmo liceu, fizemos o mesmo curso na universidade. E, todos os dias, troc\u00e1vamos as nossas experi\u00eancias e cont\u00e1vamos hist\u00f3rias. Ele \u00e9 um contador de hist\u00f3rias maravilhoso, e muito, muito engra\u00e7ado, por isso sempre me envolvi com as suas hist\u00f3rias. Estava sempre a tentar tornar as minhas vers\u00f5es do dia tamb\u00e9m excitantes para ele.\n<\/p>\n<p>Penso tamb\u00e9m que \u00e9 porque cresci em relativo isolamento quando era crian\u00e7a nos anos 50, na Austr\u00e1lia rural. N\u00e3o havia televis\u00e3o. Mas havia a matin\u00e9 de s\u00e1bado no pal\u00e1cio de imagens local, onde todos n\u00f3s nos reun\u00edamos. Crian\u00e7as de todas as zonas rurais vinham para l\u00e1. E havia r\u00e1dio, e havia banda desenhada, e havia livros. O resto do nosso tempo era passado a brincar. E com tudo isso, penso que estava a servir algum tipo de aprendizagem involunt\u00e1ria para me tornar cineasta, o que ainda estou a fazer todos estes anos mais tarde, na verdade.\n<\/p>\n<p>S\u00f3 quando consegui realmente fazer o meu primeiro filme e est\u00e1vamos a filmar e a cortar algo pelo tempo \u00e9 que de repente vi que o filme \u00e9 narrativo, acima de tudo. E ainda \"estou a tentar descobrir n\u00e3o s\u00f3 como contar hist\u00f3rias em filme, mas o que significa que \"estamos de alguma forma ligados para a hist\u00f3ria\". Atrav\u00e9s do tempo e do espa\u00e7o, quem quer que sejamos, em todas as culturas, descobrimos de facto o mundo atrav\u00e9s de hist\u00f3rias, quer se trate de pequenas hist\u00f3rias pessoais ou hist\u00f3rias comunit\u00e1rias ou das grandes hist\u00f3rias mitol\u00f3gicas, que acabam por se tornar as grandes cren\u00e7as religiosas... tudo isto faz parte do mesmo continuum.\n<\/p>\n<p>\u00c9 um grande mist\u00e9rio, e se tiveres a sorte de ser um contador de hist\u00f3rias, ocasionalmente - pelo menos para ti - consegues iluminar o processo e a necessidade de fazer das coisas uma hist\u00f3ria.\n<\/p>\n<p>No filme, a personagem de Tilda Swinton, Alithea, parece convencida de que todos os mitos e hist\u00f3rias hist\u00f3ricas podem ser explicados atrav\u00e9s da l\u00f3gica e da ci\u00eancia, mas isso muda com a introdu\u00e7\u00e3o do djinn. Acha que existem for\u00e7as ou criaturas l\u00e1 fora para al\u00e9m do que podemos ser capazes de explicar?\n<\/p>\n<p>N\u00e3o, acho que n\u00e3o h\u00e1 criaturas por a\u00ed. H\u00e1 certamente acontecimentos e fen\u00f3menos l\u00e1 fora, no entanto, que est\u00e3o para al\u00e9m da nossa capacidade de explicar. Tem sido sempre esse o caso, como a pr\u00f3pria Alithea diz. Ela diz: \"mythos \u00e9 o que sab\u00edamos na altura, e a ci\u00eancia \u00e9 o que sabemos at\u00e9 agora.  \"Essa \u00e9 a narrativa dos seres humanos \u00e0 medida que adquirimos colectivamente conhecimento. Chegou ao palco em que muito desse conhecimento \u00e9 corrompido, dependendo da bolha ou da comunidade a que se queira juntar, mas independentemente de toda essa ret\u00f3rica anti-cient\u00edfica, tu e eu estamos a falar atrav\u00e9s de milhares de quil\u00f3metros simplesmente por causa de Newton e Maxwell.\n<\/p>\n<p>Em todas as mensagens e hist\u00f3rias, h\u00e1 um narrador e um receptor. Como se recebe Cinderela como um homem de meia-idade pode n\u00e3o ser como uma menina de oito anos. Quando est\u00e1s a \"montar um filme, tentas elaborar o que queres que as pessoas recebam, ou est\u00e1s mais interessado em ver o que elas recebem e para onde o levam?\n<\/p>\n<p>\u00c9 realmente uma coisa interessante. \u00c9 ambos, e onde se encontra o equil\u00edbrio \u00e9 realmente como um filme tem significado, ou envolve uma audi\u00eancia de uma forma ou de outra. Posso dizer isto com a autoridade de algu\u00e9m que \"experimentou aquilo de que est\u00e1 a falar\".\n<\/p>\n<p>Antes de mais, todas as hist\u00f3rias que valem o seu sal s\u00e3o aleg\u00f3ricas de uma forma ou de outra. Por outras palavras, h\u00e1 mais nelas do que se v\u00ea. S\u00e3o tamb\u00e9m ' muito po\u00e9ticas, o que significa que est\u00e3o nos olhos de quem as v\u00ea. Agora, quer sejam \"contos de fadas ou filmes document\u00e1rios ou livros muito anal\u00edticos ou hist\u00f3rias de jornais, qualquer hist\u00f3ria tem de ter essa qualidade se quiser ter alguma resson\u00e2ncia.\n<\/p>\n<p>\u00c9 sempre a Cinderela que diz que significa algo diferente para todos, mas s\u00f3 tem de ter uma audi\u00eancia suficientemente grande para ter o discurso. O exemplo mais marcante para mim foi Babe. Lembro-me de estar na \u00c1frica do Sul e algu\u00e9m me disse muito enfaticamente que o filme \u00e9 sobre o apartheid, especificamente. O filme declara no in\u00edcio que \"\u00e9 sobre um cora\u00e7\u00e3o sem preconceitos e como mudou para sempre o nosso vale, ou algo do g\u00e9nero\". Isso' \u00e9 dito na narra\u00e7\u00e3o. Mas este homem disse: \"N\u00e3o, n\u00e3o, \u00e9 especificamente sobre o apartheid\", e eu disse: \"O que queres dizer com isso?  \u201d\n<\/p>\n<p>Ele assinalou que houve um momento em que o agricultor estava a olhar pela janela. O porco decidiu aprender a ser um porco de ovelha e rebanho de animais diferentes, e \"separou as galinhas castanhas das galinhas brancas\". Isso foi puramente acidental, porque est\u00e1vamos a tentar mostrar que ele podia organizar-se pedindo amavelmente aos v\u00e1rios animais da quinta, mas isso foi para ele um indicador de que se tratava especificamente do apartheid. Nunca me tinha ocorrido.\n<\/p>\n<p>Agora percebo que esse tipo de coisa est\u00e1 em todas as hist\u00f3rias, se tiver essa dimens\u00e3o po\u00e9tica. Mesmo uma hist\u00f3ria desportiva, ou o que quer que seja. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 acidental, porque s\u00e3o \"deliberadamente po\u00e9ticos\". \u00c9 por isso que \"muitas vezes contamos hist\u00f3rias atrav\u00e9s de algum tipo de avatar, que pode ser um animal ou um super-her\u00f3i ou alguma outra figura\".\n<\/p>\n<p>A pessoa que teve a melhor resposta \u00e0 sua pergunta foi Freddie Mercury. Algu\u00e9m se dirigiu a ele e disse: \"Acho que compreendo o que \u00e9 a \"Raps\u00f3dia Bo\u00e9mia\",\" e procedeu a dizer isto e aquilo. A resposta de Freddie Mercury foi: \"Se a vires, querida, ela est\u00e1 l\u00e1\".  \u201d\n<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que me sinto atra\u00eddo por estas hist\u00f3rias. O mundo Mad Max \u00e9 um mundo aleg\u00f3rico. Os Babes e os P\u00e9s Felizes, esses s\u00e3o mundos aleg\u00f3ricos.\n<\/p>\n<p>Este filme \u00e9 obviamente, porque \u00e9 um \"conto de fadas\". O paradoxo \u00e9 que existem frequentemente verdades muito profundas que ressoam atrav\u00e9s dos contos de fadas. \u00c9 por isso que alguns desses detalhes perduram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>George Miller nunca foi um dos que se dedicaram a um \u00fanico g\u00e9nero. 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